quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Memórias de um Nicolino

A Associação de Comissões de Festas Nicolinas, dando seguimento a um projecto iniciado pela direcção anterior, decidiu convidar um dos seus elementos a escrever um relato de memórias e vivencias durante o tempo de comissão. Na altura, ninguém melhor do que o sócio numero 1 e fundador desta Associação. Hoje a direcção decidiu convidar o seu actual Presidente da Assembleia Geral, pelo cargo que ocupa na Associação, pelos seus 20 anos de velho Nicolino e também por ser um dos fundadores da Associação, André Coelho Lima.
Porque o passado faz parte de nós e é com ele que construímos o Futuro, ficam na íntegra as Memórias de um Nicolino.

Caros amigos,

É-me solicitado que escreva umas linhas sobre as Nicolinas, e sobre as minhas memórias de Nicolinas. Escrevo “a quente” porque hoje é dia 26 de Novembro, o que para qualquer nicolino significa um crescer de expectativas para o “nosso” dia, o 29 de Novembro que está cada vez mais próximo.

Mas as minhas memórias não podem passar ao lado do período em que tive o privilégio de pertencer a uma Comissão de Festas Nicolinas. Em 1992. Vão agora, precisamente, 20 anos. Despertei para as Nicolinas cedo, participando e acompanhando nos vários números, mas só mais tarde fui convidado a integrar uma Comissão de Festas. Habituava-me a ver e a admirar aquele grupo de rapazes barbudos, todos de preto, a passar nas ruas como se estivessem a tomar conta delas, que nós, os mais novos, simultaneamente temíamos e admirávamos. Mas era maior a admiração. Eu achava inatingível poder pertencer a uma Comissão. Até que, algum tempo depois, o meu amigo Rui Barreira, que tinha pertencido à Comissão nos anos anteriores, me veio motivar a integrar a Comissão de Festas. Começaram as dificuldades.
Primeiro, convencer os meus pais a deixarem-me ir. Não foi tarefa fácil. Mal sabia então o meu Pai das consequências da sua decisão pois, ao deixar-me integrar a Comissão, estava a dar uma “autorização prévia” aos meus 3 irmãos mais novos, que depois, em 1996, 1997 e 2000 integraram igualmente a Comissão. Condição imposta: tratar sozinho de ir às reuniões à noite, de domingo a 6ª feira (só folgávamos ao sábado), se queria pertencer à Comissão teria que me desenrascar. O que para quem, como eu, morava em Pevidém, não era fácil, vir todos os dias da semana de boleia para a cidade para vir às reuniões da Comissão.

Depois veio o traje. Coube-me herdar o traje que o meu Pai usara no tempo dele do Liceu.

Que orgulho! Vestir o mesmo traje, a mesma batina, a mesma capa que o meu pai usara 20 anos antes, rasgada pelos seus amigos e pela minha Mãe. Arranjar camisas adequadas, aprender a dar o nó na gravata. Tudo era novo, tudo era diferente. Lembro-me bem da primeira reunião, a mais informal. Foi no dia em que o Vitória recebeu o Ajax de Amesterdão em Guimarães (perdemos 0-3). No final lá nos encontramos, a Comissão de Festas, para nos conhecermos. Conhecia bem o Presidente, o Salgado (Miguel Salgado Fernandes), e o Mirex (Paulo Gonçalves) e “levava” comigo dois amigos para a Comissão, o Russo (Luís de Sousa) e o André Assis. Os restantes conhecia mal ou não conhecia de todo. No final fiz boas amizades com pessoas que não conhecia. Amizades que guardo até hoje.

Começou aqui a melhor experiência da minha vida. Melhor porque irrepetível, melhor porque só absorvível na plenitude se vivida nestas idades, melhor por ser tão intensa, e ao mesmo tempo tão rápida.
Pertencer a uma Comissão de Festas não é um passeio. É muito difícil. É difícil percorrer vários quilómetros todos os dias para realizar os “tradicionais peditórios” (e romper três pares de sapatos…).
É difícil andar à chuva sem poder usar guarda-chuva, e carregar a capa que, molhada, pesa quilos. É difícil sentir de perto tantas dificuldades de tantas famílias a quem pedíamos contribuíssem. É difícil chegar ao fim da tarde, já noite, completamente esgotado e só ter tempo para jantar a correr, porque às 21.30h já tinha que estar na cidade para as reuniões diárias. É difícil ter que estar todas as noites, pelas 21.00h, em frente aos correios de Pevidém de dedo esticado. É difícil ter que impor respeito e mandar calar, sozinho, umas dezenas de caixas que estejam a tocar para além das 22.00h. É difícil passar as festas todas sem no fundo nelas poder participar, porque a nós cabe organizar.

Mas sobretudo, tudo isto é particularmente difícil para quem tem 18 anos, ou menos. Mas é tão difícil quão reconfortante. É tão difícil quão compensador. De facto, sai-se da Comissão uma pessoa diferente da que lá entrou. Mais amadurecida, mais responsável, mais preparada para o Mundo. A vivência da Comissão de Festas é essencialmente formativa. Basta que pensemos que as Festas Nicolinas são totalmente organizadas por um grupo de miúdos que, a quase totalidade deles, até integrarem uma Comissão nunca tinham tido grandes responsabilidades. Mas enquanto membros da Comissão temos que negociar e celebrar contratos, abrir contas bancárias, contratar pessoas para levarem a cabo determinadas funções (como por ex. os lavradores para cortar e desfilar o Pinheiro com as suas juntas de bois), organizar os cortejos e ser mesmo responsável por eles.

Isto faz-me lembrar um episódio que é para mim inesquecível, que é o Pinheiro de 1992, o meu Pinheiro. Como alguns se lembrarão, foi o ano em que perto da meia-noite e com a Rua Dª Teresa (ao lado do Campo S.Mamede) completamente cheia, os bois das primeiras juntas, picados por alguns irresponsáveis que por ali passaram, desataram a correr desenfreadamente colhendo algumas dezenas de pessoas no seu caminho, boa parte dos quais tiveram que ser hospitalizados. Nunca me esquecerei da imagem de ver as pessoas a ser projetadas a vários metros de altura à passagem dos bois, que os atiravam com os chifres à sua passagem.

Depois deste cenário de horror, seguiu-se o natural pânico. E nós, os miúdos que ali estávamos, é que tínhamos que o resolver. A polícia vinha ter connosco perguntando como deviam atuar, um colega meu não aguentou a pressão e perante aquele cenário desatou a chorar compulsivamente, e nós, os miúdos, sem saber o que fazer. O Presidente chamou os que por ali estávamos, instruiu que abríssemos caminho pelo cortejo para a passagem das ambulâncias, e à polícia que nos ajudasse nessa função. Devo ter percorrido o cortejo inteiro, a correr, do início ao fim e do fim ao início, quase 10 vezes. Até à última ambulância ter socorrido o último acidentado. Não me lembro do final do meu Pinheiro. Estava completamente esgotado. Sei que fui à Ceia de Penselo, pelas 4.00h, como todos os anos, mas já nem me recordo de lá entrar porque adormeci antes…

Mas há um momento que, para nós, tem um valor inexplicável: o momento em que o pinheiro, a árvore, se ergue altaneira perante todos os que a acompanharam. Esse momento, para nós que passamos tantos sacrifícios até àquele momento, que andamos de sol a sol em peditórios para que aquilo fosse possível, que deixamos de ter família, namorada, amigos durante quase 2 meses, para nós, esse momento, compensa tudo! Os abraços entre todos os membros da Comissão, a sensação de dever cumprido, a sensação de que fomos capazes, de que, no nosso ano, conseguimos honrar e cumprir a tradição, a sensação de que valeu a pena, tudo vem ao de cima naquele momento. É um momento único. E difícil de descrever. Só de sentir, e recordar com imensa saudade, quando, ano após ano, vejo as Comissões repetirem idêntico ritual. Olho para eles a saber o que estão a sentir, a invejá-los pelo que estão a viver. Mas feliz por o ter podido viver também, no meu tempo.

E há também episódios curiosos.

Como aquele em que o Presidente me incumbiu de acompanhar o Manel das Vacas no peditório de garrafas. Perto do Pinheiro, a Comissão tem que fazer um peditório de garrafas pelas tascas e cafés da cidade, para dar aos lavradores que acompanham e guardam o Pinheiro no desfile. O Manel é que conhece bem os sítios, eu fui o elemento da Comissão encarregado de o acompanhar. Claro está que o Manel – fino – pôs o rapaz a carregar as garrafas às costas num saco de sarapilheira. Lá fui eu, de tasca em tasca, de café em café, a fazer de carrejão do Manel das Vacas que era o comercial de serviço. Até que, já perto do fim, venho eu trajado e de saco de sarapilheira às costas, carregado de garrafas, e resolvemos atravessar do Centro Histórico para Couros, na passadeira em frente à Torre da Alfândega. Vinha um carro que parou para atravessarmos. Agradeci e atravessamos. Era noite e as luzes não permitiam ver o carro, mas ao passar, quando olho para a esquerda, vejo que o carro que parou era nada mais nada menos do que o pai da menina com quem namorava há pouco meses – que é hoje a minha mulher e mãe dos meus 2, quase 3, filhos – com a família toda dentro do carro, estarrecida, a olhar para o namorado da filha mais velha a atravessar a rua com um saco de sarapilheira cheio de garrafas às costas…

Era escusado explicar o que estava a fazer, a imagem já estava dada, e não foi, como imaginam, das melhores…

Podia ficar aqui toda a noite e escrever dezenas de páginas. Um livro quase. Porque as Nicolinas são um momento infindável de memórias, mas sobretudo de sentimentos. De saudades, de muitas saudades. De viver a cidade com uma intensidade única, de conhecer todas as suas ruas e profundezas. De um sentir Vimaranense muito forte e que nunca mais sai. Que fica impregnado. Que orgulho. Que saudades.

Termino, dedicando estas palavras ao meu bom amigo Rui Barreira, por culpa de quem eu vim para as Nicolinas, e com quem tenho vivido muitos momentos nicolinos ao longo da vida.

E à família. Aos meus irmãos e aos meus filhos. O orgulho imenso que tive em ver os meus irmãos fazer parte da Comissão, os abraços infindáveis que demos e as lágrimas que partilhamos, por vivermos momentos únicos, juntos, são sentimentos que nunca esquecerei e que me fazem desejar, naturalmente, como vimaranense, e como pai, poder um dia sentir idêntico orgulho ao ver os meus filhos trajar de capa e batina, e integrar esta instituição secular que se entrecruza com a História de Guimarães.

Por vós, meus filhos, faço tudo o que faço. Espero que um dia possam ler estas minhas palavras, e nelas sintam a emoção genuína de um vimaranense e de um nicolino, e percebam o orgulho que terei em que um dia possam sentir o mesmo que eu senti.

Guimarães, 26 de Novembro de 2012

André Coelho Lima

Sub-chefe de Bombos 1992
Pregoeiro 1992

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